A lição de vida do Pedro

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Olhar de Perto : “Movimento para a Abolição da Miséria” (MAM), na Argentina

Neste artigo a fundadora do MAM dá-nos um testemunho sobre o Pedro, sobre a sua luta pela dignidade e sobre a “lição de vida” que ele é para todos. À descoberta de correspondentes do Fórum Permanente sobre a Extrema Pobreza no Mundo.

O “Movimento para a Abolição da Miséria” é uma ONG que acompanhou durante 10 anos (até 2003) um certo número de famílias que viviam em condições intoleráveis nas favelas da cidade de Santa Fé, na Argentina. Na origem, o MAM era composto por um grupo de pessoas que se chamava “Para uma Melhor Qualidade de Vida”, com o objetivo de fundar uma aliança com famílias muito pobres do setor “La Tablada”.

O MAM não conseguiu sobreviver à crise económica que abalou o país. Mas, embora a sua existência jurídica se tenha extinguido, o empenho que o fez nascer continua vivo em cada um dos seus membros.

A mensagem do Pedro

Numa zona da periferia de Santa Fé (Argentina), onde alguns operários coziam tijolos de barro, os moradores sabiam que o Pedro vivia num abrigo precário debaixo duam árvore. Vivia sozinho e doente, sem falar com ninguém, e não permitia que ninguém se aproximasse. Viam-no quando ia vigiar o forno do patrão. Diziam que o salário dele era vinho à discrição e um prato de comida fria. Vivendo nestas condições, a saúde dele piorou e o sofrimento levou-o a aproximar-se dum grupo do “Movimiento Abolición de la Miséria” (MAM) para que o levassem ao hospital.A partir desse dia, sentindo que a sua dignidade era respeitada, foi revelando aquilo que nós intitulámos “a lição da sua vida”.

A Ester, voluntária do MAM, levou então o Pedro ao hospital, às urgências, onde o diagnóstico do jovem médico que o examinou, não deixou a menor dúvida. Tinha feridas nas mãos e nos braços, a pele estava em decomposição, e o seu estado exigia uma hospitalização urgente. O acolhimento caloroso do jovem médico, tão diferente da solidão no meio da qual tinha suportado os seus sofrimentos, e a promessa que os novos amigos lhe fizeram de o irem ver no dia seguinte, fizeram com que o Pedro aceitasse a hospitalização.

O médico que o tratou não nos escondeu como iria ser difícil para o Pedro superar a sua dependência do álcool sem um grupo de apoio. O fígado já estava atacado. O Pedro ficou três meses no hospital e, como se sentia bem rodeado e respeitado, o seu estado melhorou nitidamente e até conseguiu propor os seus serviços a outras pessoas. Os doentes que não podiam sair da cama chamavam-no e ele ia ajudá-los. E, como conhecia melhor do que ninguém o significado da palavra solidão, revelou-se um verdadeiro bom samaritano. Às vezes havia doentes em fase terminal que o chamavam pelo nome. Tinham medo de ficar sozinhos e pediam-lhe para lhes fazer companhia. Ninguém como ele sabia aliviar os que sofriam, dar colheradas de água aos que tinham sede, e fazer muitos outros gestos de amor. A tal ponto que os seus companheiros de enfermaria não queriam que ele se fosse embora do hospital, e até as enfermeiras falavam da sua transformação.

Quando saiu do hospital, o Pedro foi viver com os outros moradores do grupo do MAM, que o acolheram de braços abertos. Aceitou ficar responsável por um grupo que foi intulado “alcoólicos por uma vida melhor”. Chegou a hospedar um ou outro membro do grupo na sua casinha, e mandava-os ir ter com um voluntário para poderem arranjar uma consulta mais depressa e para eles poderem ser tratados como ele tinha sido. Como não conseguia formar um grupo estável, às vezes dava-lhe para beber, mas os seus esforços para largar o álcool podem resumir-se com a frase que pronunciava perante cada dificuldade : “não adianta falar, há que agir”.

Um dia, o Pedro mencionou a data do seu aniversário. E todos resolveram festejar-lhe os anos para lhe darem também os parabéns por todos os seus êxitos. Quando o grande dia chegou, todos viram que ele estava à espera do bolo de anos, todo bem vestido e muito nervoso. E, quando verificou que tudo era bem verdade, que lhe traziam o bolo e que se ia fazer a festa, não foi capaz de aguentar a emoção, e teve que sair, dizendo : “Nunca pensei que um dia eu pudesse receber um bolo de aniversário !” Estava muito comovido, quase a chorar, foi-se embora para beber, sozinho no seu canto, e dormiu até ao dia seguinte. Quando regressou, ninguém lhe falou no assunto. A aceitação deste tipo de situação é uma lição para os voluntários, pois todos devemos respeitar profundamente as pessoas doentes ou infelizes.

Uma noite, ao voltar para casa, afogou-se num fosso. Os amigos dele puseram uma cruz de madeira junto desse fosso com a inscrição : “Descansa, índio”. Chamavam-lhe índio por causa da sua tez acobreada. Puseram um ramo de flores na cruz e pediram ao padre da freguesia para lá ir rezar por alma dele.

Alguns anos mais tarde, a Ester encontrou um amigo do Pedro que lhe disse que, a seguir à sua morte, tinha prometido que nunca mais beberia e que ajudaria os outros a tomarem a mesma decisão, para continuar aquilo que o Pedro tinha começado. O Pedro deixou um testemunho muito forte, pois nos últimos anos da sua vida conseguiu lutar pela sua própria dignidade e transmitiu aos outros uma enorme esperança.

Ester C. , Associação MAM, Argentina

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Na Web

Jornada Mundial da recusa da miséria http://www.oct17.org/site/sommaire.php3?id_rubrique=8

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Wherever men and women are condemned to live in extreme poverty, human rights are violated.
To come together to ensure that these rights be respected is our solemn duty.

Joseph Wresinski

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